Elisabete Inverno

“Começar o que não se acaba”

Crónica de Janeiro de 2023

Ser instrumento de Deus é não viver para “ver” os resultados do nosso trabalho. É não alimentar a ilusão de que somos o Alfa e o Ómega do que seja, de quem for.

Nesta nova vida de amor, fraterna e hospitaleira, que abraçamos quando pegamos o Deus Menino no colo, somos não mais que arautos de uma história que já existia antes e continuará a existir depois da nossa passagem por estas páginas, em que somos personagens, mas não o seu Autor.

Se não, vejamos:

São José criou e educou Jesus. Mas não viveu para O ver anunciar a Boa Nova do Reino.

São João Baptista, o maior entre os nascidos de mulher, segundo o próprio Jesus, também morreu antes de percorrer o Caminho que ajudou a preparar. A Bíblia faz referência dele em apenas cinco ou seis frases, mas é hoje dos santos mais populares em todo o mundo.

São João da Cruz morreu antes de concluir a reforma da Ordem Carmelita. É hoje dos grandes doutores da Igreja.

Antoni Gaudí nunca viveria o suficiente para assistir à conclusão da Catedral da Sagrada Família. E mesmo ciente disso, não deixou, no entanto, de a projetar.

São João de Deus, tido como louco por muitos dos seus contemporâneos, é pai de uma obra hoje espalhada por todo o mundo.

A Palavra de Deus (Bíblia) chegou até nós porque “de geração e geração” foi sendo transmitida, nunca contida nem sufocada.

Quantos Santos temos hoje na Igreja que viveram uma vida de entrega ao silêncio laborioso e que, só depois da sua morte, ao acedermos aos seus escritos, no fundo, aos seus testamentos espirituais, é que nos demos/damos conta dos tesouros que “viviam ao nosso lado”?

Começar algo que sabemos de antemão que não vamos ser nós a acabar, não é uma questão de tecer uma vida incompleta. Fazer uma manta de um tecido só ou com vários retalhos tem exatamente o mesmo valor. Uma ou outra encontrarão utilidade. Serão aconchego para alguém.

Começar o que sabemos de antemão que não vamos acabar, é não só um ato de generosidade, de despojamento, como um ulterior exercício de humildade, perante Deus e a Sua obra da Criação.

Somos tecelões de uma Rede invisível de Amor. Instrumentos que tocam uma Partitura que tem um só Maestro. Somos o “meio” de algo que nos excede e ultrapassa. Mas, mais que isso, somos sem dúvida o princípio e o meio de tudo o quanto fazemos por e com Amor. O fim há-de ser sempre o Eterno Bem, que é Deus. Só assim se entende sermos os “fins” uns dos outros, na medida em que me devo ao próximo, para o levar comigo a Deus.

Umas vezes somos comboio, outras passageiros. Outras ainda, estação. Mas nunca passaremos de uma Rota num Mapa que não tem início nem fim. Pelo menos, não definidos por nós.

Abrir mão e entregar, não possuir mas potenciar… Quanta beleza! Fazendo eco de São Gregório de Nissa, aquele que ascende nunca deixa de caminhar de início em início; nunca se acaba de começar.

“A felicidade também exige discernimento”

Crónica de Dezembro de 2022

A esperança da felicidade, daquela que só o amor nos dá, será talvez o que nos move. Ainda que não saibamos de antemão o que, na prática, procuramos. O que, na teoria, projetamos. Mas, a felicidade… arrisco escrever, tem muito que se lhe diga.

Não creio que seja “apenas” um estado permanente, ou recorrente, de alegria. Ou de paz. Ou de paz e alegria. A felicidade não chega por geração espontânea, por muitas vezes que se apresente assim na nossa vida. Há que ter em conta que a “sorte” e/ou o “destino”, para terem uma palavra a dizer na nossa história é porque, quase sempre, já tiveram muitas palavras ditas nas histórias de muitos outros antes de nós.

É como que um ciclo vicioso, este de nos contagiarmos com o que nos faz bem. No entanto… A felicidade também nos pode esmagar. Sim, por vezes, custa arranjar espaço para encaixá-la. Sobretudo, quando ela irrompe na nossa vida quando menos esperamos, de quem menos expectamos.

A felicidade também nos pode esmagar quando arriscamos mesmo naquilo que já sabemos que nos faz bem. Porque nos supera. Porque nos superamos (porque não?!). É uma construção. Está no meio, bem mais do que no fim. Está na relação, bem mais do que na evasão daquilo que nos fere.

A felicidade também pode ser inebriante. E alienante. Uma fase de contentamento ou um momento extasiante, podem induzir-nos à certeza falaciosa de que doravante tudo será fácil, tudo será certo, sem erros nem constrangimentos.

A felicidade também nos dói quando esbarramos num sonho adiado e o nosso coração, impávido, tem dificuldade em assimilar a – nova – realidade. Ver a promessa cumprida também dói, porque nos confronta com a descrença que fomos experimentando no caminho, embora tenha sido a crença que nos fez chegar até “aqui”. Não é uma dor de pele, nem de coração; é mais uma dor de orgulho de filho pródigo, que depois de tantas provas dadas, ainda se espanta com a gratuidade incondicional do amor do Pai. E ainda bem. «Aonde iria eu, sem Ti, Senhor» …

A felicidade também pode ser serena, pacífica, como uma brisa suave num pôr-do-sol que nos abraça o cansaço do dia e nos sussurra ao ouvido do coração que amanhã o sol volta – sempre – para iluminar até mesmo as nuvens cinzentas da nossa desolação. É por tudo isto e muito mais, que também exige discernimento. Deixar a felicidade fazer casa no nosso coração, ocupar o espaço que não queríamos ou que não pensávamos ter para dar, mais do que um ato de coragem, é um ato de amor. Próprio.

“A admiração de si mesmo”

Crónica de Novembro de 2022

«As pessoas viajam para admirar a altura das montanhas, as imensas ondas dos mares, o longo percurso dos rios, o vasto domínio do oceano, o movimento circular das estrelas, e, no entanto, elas passam por si mesmas sem se admirarem» (Santo Agostinho).

Sabemos – creio que empiricamente – que qualquer direção que tomamos no nosso andar, encontramos sempre um caminho. E o mais fascinante é que na nossa caminhada pelo tempo, há sempre uma nova rota a ser traçada (nunca é tarde, certo?). Os nossos passos, ao caminharmos, alguns levam-nos a sítios e outros a pessoas, e outros ainda a sítios e pessoas. Em qualquer dos casos, o caminho conduz-nos sempre ao encontro. Só que há encontros e encontros. Estranho, não é?

Mas, com tantos passos e caminhada, afinal ao que vamos? O que, de facto, procuramos? Damo-nos conta do que nos move ou gastamos o saldo da nossa ampulheta a navegarmos ao sabor do vento? De remos guardados, irmos sem destino, expectantes com o inesperado e prontos a enfrentar o desconhecido, ou certos de que controlamos todas as variáveis dos caprichos do tempo e do espaço?

São duas opções. Sim, por um lado, gostamos de adrenalina. Caminhamos, chegamos, olhamos à volta e prosseguimos. Estabelecemos nova etapa. Voltamos a caminhar, a chegar, a olhar e a prosseguir. E lá vem outra nova rota. Sempre com adrenalina, porque os horizontes nunca se esgotam. E assim prosseguimos. O que nos dá sentido ao caminho? A adrenalina? Os horizontes? No fim da linha, o que levamos?

Caminhos e encontros fortuitos e fugazes, porque parámos, olhámos, mas não vimos, não ficámos. Encontrámos sítios e pessoas, vimo-los, vimo-las, tocámo-los, tocámo-las, mas não os/as sentimos, não os/as conhecemos e verdadeiramente não os/as encontrámos, porque verdadeiramente não parámos.

Continuámos. Novos sítios e novas pessoas alcançámos. Sofregamente andámos, caminhámos, parámos, mas não ficámos. Mergulhámos numa espiral de “check-lists” e “to-do lists” e, por isso, só passámos, só andámos. E no fim o que levámos? Uma coleção de flashes, repetidos e gravados na nossa memória. Não guardámos os cheiros, os sabores, os barulhos, o silêncio.

Alguns caminhos levam-nos a sítios e outros a pessoas, e outros ainda a sítios e pessoas. Uns despertam-nos os sentidos e outros assaltam-nos a memória, e que levámos?

Depois há a outra opção. A de passar, parar, ficar, olhar e ver. Encontrar e conhecer. Mas só porque se parou e ficou. E… finalmente, a admiração! Creio que o verdadeiro encontro, aquele que não fica só na memória, mas também – mais do que tudo – no coração, só acontece perante o inesperado assombro da admiração.

Receio que qualquer que seja o ponto de partida, a nossa caminhada só terá sentido se o ponto de chegada estiver carregado de amor. Um amor que não foi ganho com o cruzar da meta, pelo contrário, começou a ser desenhado com o primeiro (incerto e inseguro) passo. Foi uma construção, o caminho que nos levou à meta. Recheado de sítios e pessoas. De criação e de humanidade. Não é a nossa casa e a nossa família o melhor tempo e lugar de nós mesmos?

«Precisamos uns dos outros para sermos nós mesmos», também dizia St. Agostinho. Desconfio, por isso, que a melhor admiração que podemos receber de nós é o amor que damos e recebemos. É a melhor e mais eficaz equação matemática que alguma vez faremos, pois só há amor quando há encontro, e admiração. De coração.

“Uma estranha a caminho”

Crónica de Outubro de 2022

Gosto de uma vez por ano fazer uma peregrinação. Não me importa se longa ou curta; o meu propósito, para além do gosto em caminhar, é marchar com os pés e o coração em uníssono com Jesus, a maior parte das vezes através da Sua/nossa Mãe.

Já fiz a “grande” peregrinação a Fátima, a partir da minha terra, já fiz um dos caminhos de Santiago e, mais amiúde, costumo percorrer – sobretudo pelo 13 de outubro – cerca de 30 kms, entre Torres Novas e Fátima, por exemplo. Já fui de dia e de noite, já fui sozinha e acompanhada. E em ambas as experiências – só ou em grupo – emociona-me sempre a solidariedade manifestada, das mais diversas formas, ao longo do caminho.

Sempre que caminhamos em grupo, de certa forma, partilhamos a cruz, padecemos todos mais ou menos das mesmas penas (pernas doridas, bolhas nos pés, o desafio psicológico de nos superarmos…). Quando o cansaço teima em absorver-nos, especialmente para aqueles menos habituados a caminhar, um ombro amigo – aqui bem literal – é fundamental para conseguirmos cumprir o objetivo: chegar.

E, sempre que nos apresentamos aos pés da Mãe, somos tomados por uma comoção que resume e dá sentido a todo o esforço. As lágrimas revestem-se de sabor a vitória, não tanto por termos chegado – que também importa – mas, mais do que isso, por termos construído um caminho, juntos. Juntos com Deus, connosco e com os outros; aqueles “outros” que tantas vezes partem de lugares diferentes, mas cuja meta nos faz cruzar as vidas, mesmo antes de a termos alcançado.

É um caminho feito de «alegrias e dores, penas e trabalhos», de partilha, de convívio, de amizade, de solidariedade… Cada olhar espelha o mesmo sentimento: gratidão. Porque juntos sofremos, vencemos e descobrimos e/ou cimentámos a certeza de que Deus não é senão Amor. Ele esteve no princípio da caminhada, quando no mais íntimo de nós nos chamou a ela; esteve durante a caminhada, sustendo-nos e ajudando-nos a não desistir, por mais vezes que caíssemos; e esteve no fim, quando na meta nos recebe de braços abertos sem precisar de nos dirigir uma palavra. A Sua presença basta.

A experiência de caminhar sozinha, embora menos calorosa, também não deixa de ser enriquecedora. E talvez aqui a oração seja mais preponderante. Psicologicamente é muito mais exigente, claro. A forma como encaramos os primeiros passos diria que é fundamental. Quer conheçamos ou não o caminho. No meu caso, das vezes que optei por arriscar ir sozinha deveu-se ao facto de já conhecer o trajeto. E se, na hora de decidir, isso nos conforta e dá alguma segurança, a verdade é que quando começamos a “viagem” e mentalmente revemos o que nos espera… o ânimo fraqueja. Como superamos? Bem, diria que é uma questão de fé (e meia dose de loucura!).

Na caminhada que fiz este ano, logo no início fui ultrapassada por dois pequenos grupos de ciclistas. Praticamente todos me cumprimentaram e votaram uma palavra de alento. Eles iam acompanhados e de bicicleta; eu ia sozinha e a pé. Vê-los distanciarem-se de mim ajudou a “correr atrás”. Depois, também há sempre um ou outro carro que, quando passa por nós, buzina ou abranda e abre a janela para gritar “Força!”.

Há um reconhecimento e respeito subentendidos, arriscaria que sagrados, que me impressiona: mesmo quem certamente não é crente, não deixa de apoiar. E faz-me pensar nas razões que validam a “fama” das peregrinações a Fátima e a Santiago de Compostela. Nas primeiras, pedimos ajuda à Mãe, e muitas vezes pedimo-lo por outros. Nas segundas, partimos essencialmente em busca de nós; guiados por Deus, pelo apóstolo Tiago, por Maria… Nem sempre o sabemos. Mas partimos. E chegamos, qualquer que seja a meta. Deus faz-se sempre presente.

Ainda sobre o caminhar sozinha… O provérbio chinês (?) de que «sozinhos vamos mais rápido, mas juntos vamos mais longe» tem o seu fundamento. É um facto. Sozinhos vamos mais depressa, porque também conscientes de que estamos mais expostos ao perigo. Psicologicamente é mais pesado e desafiante, porque é mais fácil concentrarmo-nos só em nós, nas dificuldades que enfrentamos e como as ultrapassamos (por muito que tentemos fazer o caminho com Deus). Mas pela minha experiência, nada compensa o amor que damos e recebemos quando caminhamos acompanhados. Juntos somos mais fortes, porque temos alguém por quem e a quem dar a vida; somos mais fortes, porque é mais fácil sacrificarmo-nos pelos outros. É isso que nos edifica e acrescenta valor.
Só o amor nos justifica. E é esta experiência de reciprocidade que me faz viver a certeza de que quem aceita percorrer os caminhos de Deus nunca terá uma vida “normal”. E é isso que nos torna “estranhos”.

Elisabete Inverno. Natural de Castelo de Vide, já viveu em Lisboa, mas o coração devolveu-a ao Alentejo. É formada em Serviço Social e em Ciências Religiosas, estando presentemente dedicada à lecionação da EMRC na sua diocese, Portalegre-Castelo Branco. Faz parte da Juventude Hospitaleira, carisma que abraçou ao trabalhar com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus.
Como qualquer pessoa que nasceu para jamais morrer, gosta de estar em família e entre amigos, de ler, ouvir música, dançar, viajar, gosta de desporto, de arte, de natureza e, sobretudo, de nela caminhar. Mas, mais do que tudo, gosta (embora, às vezes – muitas – reclame) do desafio de diariamente ser cristã.