David Barbas

“Almas inquietas e atentas”

Crónica de Janeiro de 2023

Uns magos, atentos aos céus, perceberam o significado de um luzeiro celeste.

Eram homens. Homens do seu tempo.
Porque viram o que mais ninguém vira?  Intuição interior? Predisposição? Talvez.
Atenção? contemplação? Certamente!

Eram homens atentos aos sinais de Deus, nas suas vidas, e, no todo das vidas que é a própria Criação.

Viram uma estrela a anos luz de distância e, compreenderam a sua diferença.

Passados mais de 2 mil anos, não é a Humanidade capaz de ver aquele, aquela, em quem tropeça…

Diz-nos Santo Agostinho que “no dia que se chama Natal viram-n’O os pastores judeus; no dia de hoje, que se chama propriamente Epifania (quer dizer, manifestação), adoraram-n’O os Magos pagãos. Aqueles receberam o anúncio dos Anjos; estes, de uma estrela”. (Sermão 204)

E a nós? Quem nos anuncia o Messias? Que Messias é que anunciamos?

Apetece-nos muitas vezes dizer como Tobias: “Senhor, olha-me e tem piedade de mim…” (Tb  3, 15).

Envia-me um sinalzinho… um anjo! Ou uma estrela!

Deus ouve-nos com este discurso e, certamente, esboçará um sorriso.

Não percebemos nada.

Queremos anjos celestes, quando tropeçamos, e não vemos os terrestres. Anjo significa mensageiro. Quantos irmãos e irmãs nossos, não são portadores da mensagem de Deus?

Já dizia S. João que “aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” ( 1 Jo 4, 20).

Como queremos ver anjos do Céu se não prestamos sequer atenção aos da terra?

Quanto a estrelas… bem, aí somos uns “experts”. Trocamos astronomia por astrologia e está arrumado. Horóscopos é connosco!

Mas, até por aí, longe vai o tempo em que na noite estrelada, a Humanidade sabia identificar os signos nas constelações…
É mais fácil hoje ler nas revistas umas coisas daí tiradas por alguns.

É mais fácil ficarmos por uma visão horizontal do que por uma vertical.

Custa-nos menos olhar para baixo do que para cima!

Ler as legendas em vez de interpretar… porquê?

Porque já não conseguimos contemplar. Já não o sabemos fazer…

Precisamos de parar…

 Mudou o ano. Renovaram-se votos e fizeram-se novos. E depois?

Vimos a estrela no Oriente? Já somos capazes de ver, ouvir, cheirar, tocar, os anjos do dia a dia?

A manifestação de Deus é constante! Nós é que não sabemos e até por vezes não queremos ver.

Incomoda. Desacomoda…

E isso é bom! Porque rompe com a nossa padronização social actual.

Deus, quando se manifesta, desinquieta sempre.

Neste 2023 sejamos verdadeiras almas inquietas… inquietas por Amor! E… “Não se esqueçam da Hospitalidade. Foi praticando-a que, sem o saber, alguns acolheram anjos.” (Hb 13, 2)

“Na voz do Silêncio… silenciei-me!”

Crónica de Dezembro de 2022

Sentei-me no chão do coro alto. À altura do meu olhar, imponente, mas simples e humilde, como outrora, e sempre, encontrei uns olhos postos em mim.

Uma mulher, bela, radiante, carismática, silenciosa, contemplativa… rodeada de anjos.

Era ela, a “Virgem Sempre Intacta”. Aquela mulher que ao longo dos séculos, dos milénios, chegou, tocou, e guiou a tantos, e tantas.

Ela, aquela Mãe que tudo guardava, e guarda, no coração silencioso. Não silencioso de indiferente. Silencioso de contemplativo; de quem guarda tudo, repassa e medita tudo.

Ela, a Mãe daquele jovem de Nazaré, Filho de Deus, que de tão oblativo no-la deu como nossa mãe também.

Ali estava ela, naquela imagem, tão bela, cara a cara comigo.

 Na igreja não se encontrava mais ninguém naquele momento. Apenas nós os três. Eu, Ela e o Seu Filho no sacrário. E ela, ali, encarando-me.

Confesso que se fez silêncio. Um silêncio diferente. E, ali, sentado no chão, assim permaneci. Em silêncio.

Não sabia o que dizer.

A dado momento recordei-me de um livro de Inácio de Larrañaga que lera, e que falava precisamente do silêncio de Maria.
Dali viajei para a Sagrada Escritura, e apercebei-me de que ela nunca fora mulher de grandes discursos. Talvez o seu maior discurso tenha sido o “Magnificat”.

Eu penso, e chego à conclusão de que não.

Ela disse mais, e falou mais alto do que o mundo inteiro, quando pronunciou aquele “Faça-se…

Aquele sim, foi a maior argumentação de Maria.

Ela disse “SIM”. E ali o mundo mudou.

O Anjo faz-lhe o anúncio, e ela, talvez a meia voz, diz lhe “Sim”, “Faça-se”.  E naquele momento aquele Sim foi um grito que ecoou, que fez estremecer, toda a Criação.

 Anos mais tarde iremos encontra-la nas ruas, a contemplar o seu Filho, o seu amado Filho, a arrastar-se, a ser humilhado e maltratado.

Iremos encontrá-la aos pés da Cruz, assistindo à morte do seu Filho… aquele Filho fruto das suas entranhas… o Filho que ela tanto amava… E fechando os olhos somos ainda hoje capazes de ouvir o seu silêncio gritante de dor, devastador…

 Quando O descem e lho entregam, naquela célebre, mas dolorosa cena que hoje apelidamos de “Pietá”, lá a vemos, com o Filho nos seus braços, tal como em criança… morto. Toda ela era dor, lágrimas e… silêncio…

Ao longo da história tentou-se reproduzir este momento, e sempre que isso acontece há um foco que sempre se realça: o olhar.

O olhar que nos focando, nos fala no silêncio… não são precisas palavras audíveis…

Vede se há dor maior do que a minha dor…

Era esse olhar que me encarava, ali, no silêncio daquela igreja. Ela queria falar-me.

Eu deixei-me ficar. Eu, Ela e Ele. E ela falou-me.

Disse-me o que eu não sabia que precisava de ouvir. Mas ela, ela sim, sabia-o.

 Ergui-me e preparava-me para sair genufletindo, quando voltei o olhar para Ele. No meu interior senti que Ele me questionava: “ouviste-a? Eu assino por baixo!”. Acho que sorri. Se não com os lábios, pelo menos interiormente.

 A Virgem Sempre Intacta, não é intocável. Ela toca-nos. No corpo, e na alma.

Mas, para isso ensina-nos a silenciar. Porque, afinal o silêncio é a linguagem própria daqueles, e daquelas, que amam!

“O Deus mudo”

Crónica de Novembro de 2022

 «Fala, Senhor».

Apenas silêncio…

A quantos de nós já não aconteceu isto… Pedir, exigir, a Deus que se manifeste, que nos fale. Ele, que não faz conversa de circunstância, deixa-nos irritados com aquele Seu silêncio.

Estava um dia chuvoso. Tão, ou mais chuvoso, do que o meu interior. Pedi-Lhe que me falasse. Ecoou um trovão. Com medo fugi para dentro de casa.

  Outro dia ia no metro, e entre a multidão que me deixava isolado, mentalmente, pedia-Lhe que me falasse.
Ao descer na estação, logo ali na esquina, uma mulher de filho nos braços me estendia a mão pedindo esmola. Absorto no meu monólogo com Deus nem a vi.

  O dia avançava e, já irritado, pelo Seu silêncio perene, troquei de rua, indo por uma mais escura, porém menos movimentada. Adiante de mim, no passeio, uma idosa, talvez octogenária, empurrava o seu carrinho de compras, lentamente, e com dificuldade. Ao ultrapassá-la nem escutei o «Boa tarde» que me dirigiu.

Não era frequentador daquelas ruas. Não conhecia muito da área. Caminhando naquele entardecer, deparei-me com uma igreja de portas escancaradas. Mesmo de fora era capaz de ver o Ostensório sobre o altar.
Desafiador, entrei.
Sentei-me nos últimos bancos e, ali, exigi que me falasse. Tal como havia acontecido no resto do dia, a única resposta que obtive foi o silêncio. Silêncio, que naquela igreja vazia se tornava ainda mais pesado.

  Um sacerdote, saindo nem sei de onde, abeirou-se, colocou-me a mão no ombro e, chamando-me a atenção, perguntou-me se estava ali para me confessar. A pergunta soou-me quase como se Ele estivesse a fazer troça de mim…
Eu havia procurado Deus ao longo de todo o santo dia, Ele não se manifestou; nem uma só palavra! E agora ainda queriam que me confessasse. Eu… o ofendido!

Entre dentes, muito a custo, respondi que não. E o sacerdote, sem insistir, saiu pelo lugar por onde havia chegado.

  Estava ali novamente sozinho naquela imensa nave de igreja.

O silêncio, as paredes, as sombras… tudo me sufocava.

Levantei-me, e virei costas para sair, quando uma voz me chama. Volto-me, mas não vejo ninguém. Apenas aquele Ostensório sobre o altar. Não podia ser…

«Não querias que te falasse?»

Era mesmo. A voz vinha dali!

Aproximei-me e ajoelhei-me nos bancos da frente.

«Sim, Senhor. Todo o dia o desejei e Te pedi!»

«Eu em todo o dia estive diante de ti. Estendi-te a mão. Saudei-te. Perguntei-te se querias falar comigo em particular como dois amigos. E tu simplesmente recusaste-Me…»

Compreendendo cá dentro as Suas palavras, perguntei-Lhe envergonhado:

«O que devo fazer?»

«Abre os teus olhos. Toca a Minha carne. Sente o meu cheiro. E aí escutarás a Minha voz. Não acuses de mudo quem te Ama, quando tu próprio ages como surdo…»

“O que farás com a tua tela?”

Crónica de Outubro de 2022

 Estava a chover. Parei à porta para contemplar a paisagem, e, lembrei-me de Voltaire, e da sua célebre frase: “Não posso imaginar que este relógio exista e não haja um relojoeiro”. O vento soprava agreste, fazendo com que as folhas das árvores batessem cadenciadas. Harmoniosamente cadenciadas.
Mas o que me chamou a atenção foram as folhas. Não apenas as das árvores. Porque nem só as árvores possuem folhas. Foram as folhas das videiras. As folhas das videiras… agora em tons de amarelo, vermelho, castanho… via-as bater, ondeando ao ritmo do vento e, parado, parei a contemplar todo aquele quadro. Uma palete de cores, variada, mas harmoniosamente composta.
E, ao jeito de Voltaire conclui o óbvio: uma palete de cores de tamanha qualidade e harmonia exige que haja um bom pintor.

 A nossa vida é tela branca, pronta a colorir.
Cabe-nos decidir que pintor vamos deixar que o faça.
Podemos ser nós próprios, e, egocentricamente, dar umas pinceladas mais ou menos habilidosas. Quem sabe, fazer apenas um rabisco torto, sem sentido, e convencendo-nos primeiramente, tentamos convencer também os outros de que se trata de arte abstrata. Vida abstrata.

Também podemos fazer uma parceria com algum pintor barato, de marca branca, mas que se intitulam de verdadeiros mestres, a preço de saldo. Contratar o mestre Ego, a mestra Vaidade, ou a mestra Futilidade, o mestre Utilitarismo, ou o mestre dos Encantos e Prazeres. Pintam belas telas. É verdade. Enchem-nas de cores vivas e imagens aprazíveis. Mas, eis que vem outro mestre. O mestre Tempo. E sendo um mestre que revela a verdade das coisas, mostra-nos que aquela obra era mera fantasia barata, que perde o brilho e o espanto. Era obra falsificada, não original.

 Podemos optar sempre por um outro pintor. Podemos optar sempre, não é verdade? Podemos optar por Aquele mesmo que nos permite ter o pensamento na linha de Voltaire. Podemos permitir que a nossa tela seja pintada com cores que jamais tempo algum esbaterá, apagará. E a obra não nos ficará cara. O preço é apenas a nossa vontade, o nosso querer.

Uma característica peculiar deste pintor é a sua assinatura. Não a encontramos visível no canto inferior direito. Nem sequer na parte traseira do quadro. Não a encontraremos visível em lado nenhum.
Ainda assim, sempre que contemplamos uma obra Sua sabemos que Lhe pertence, que é obra Sua.
Porque se há obras pintadas com tinta, Ele pintou a Sua obra intemporal com sangue, e n’Ele toda a Criação. Eu, e tu, incluídos, ganhamos n’Ele nova tonalidade. A tonalidade do humano feito divino, quando o divino, humildemente, se fez humano.

Agora é a hora. É sempre hora.

O que farás da tua tela? Quem permitirás que a pinte?

Lembra-te de que só há um artista que possui a palete de cores completa!

David Barbas. Natural de Recarei, terra onde nasceu e vive desde 1988.
Cristão, catequista, acólito, e Jhovem Hospitaleiro desde 2013.
Encantado por Ele, e pelo carisma de S. João de Deus: «Assim como a água apaga o fogo, assim a Caridade redime o pecado».