Adriana Abreu

“O elogio da árvore”

Crónica de Novembro de 2022

A floresta é a mais bela capela de recolhimento, não fosse essa construída pelas mãos d’O paisagista mais habilidoso.

As árvores fazem-me rezar. Arrancam o coração da superficialidade, impulsionando-o para Deus. Não sei se é certo dizer que me elevam; tenho dificuldade em conceber que, para me encontrar n’Ele, tenha de me elevar – Ele, que sendo o Altíssimo se faz continuamente baixíssimo por amor.

As raízes contemplam no silêncio da terra e ninguém as vê. Guardam a lição de que quanto mais se aprofundam no solo, melhor suporte são no tempo da ventania. Se consentirem em perder-se – ou encontrar-se – no que não se vê, mesmo sem ver, darão flor e fruto algures a jusante do xilema. Sei disto?

O tronco não tem medo de se dar até que não mais exista, para dele nascerem ramos. Procede da raiz e a árvore continua depois dele. É só um canal, um meio de condução – reto e feliz- e não tem mais pretensões.

Os ramos não conseguem ser indiferentes ao meio – são braços que acolhem o leito dos pássaros e se deixam conduzir pela brisa movendo, com eles, as folhas, que se agitam em comunhão com a tempestade e tomam parte na sua sinfonia. Essas são as mais frágeis e, de tempos a tempos, caem ao solo em atitude de desapego – mas que seria da árvore sem as folhas?

Meu Jesus, faz-me ser assim como as árvores.

“Sobre a vulnerabilidade”

Crónica de Outubro de 2022

Fugimos – com este plural quero fugir de dizer que quem foge primeiro sou eu – da vulnerabilidade. Olhamos para ela com desdém e Deus-nos-livre de aparentar esse fraco estado que pode ser alvo de olhares compadecidos. Até nos deixamos convencer que virtuoso é o contrário disto e desejável é um lugar cativo na mó de cima, glorioso e intocável, numa fortaleza aparente.

É urgente um esclarecimento conceptual: diz-se vulnerável daquele que se pode vulnerar, verbo que procede do étimo latino vulnus – que significa ferida.

Vulnerável é aquele que está sujeito a ser ferido. É aquele que, no peito, pode rasgar-se e dar de si. É aquele que está disposto a ser afetado, que é como quem diz, tocado pelo afeto. Parece-me uma condição sine qua non para o amor, isto de se deixar ferir e estar disposto a sangrar – um pouco ou tudo.

Olho Cristo na Paixão. É Ele o mais vulnerável de todos, Aquele que se deixa ferir e aceita a ferida por amor. Aquele que vê nos estigmas a manifestação da Sua glória e com estas mostra aos discípulos, na ressurreição, a vitória sobre o pecado e a morte. Pelas sua chagas fomos curados (cf. 1 Pd 2, 24), por isso, é justo que seja pelas chagas – pela vulnerabilidade – que o reconheçamos. É justo que pela vulnerabilidade nos deixemos ser reconhecidos.

Meu Jesus, faz-me vulnerável como Tu e diante de Ti.

Adriana Abreu. Nascida em 2000, em Setúbal, é buscadora de Cristo a tempo inteiro e estudante de medicina em part-time. Dedica-se à catequese de infância e aspira a poder dizer, um dia, como S. Paulo “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. Até lá, está em caminho.