Filomena Caetano

“O verdadeiro retrato do santo”

Crónica de Novembro de 2022

No passado mês de outubro começámos com uma introdução à iconografia de São João de Deus. Este mês retomamos este tema, falando do “verdadeiro retrato” do santo.

Esta representação foi iniciada pelo pintor Alonso Sánchez Coello (1531-1588), tendo sido pintada para o Hospital de São João de Deus, de Granada. A figuração recai apenas no seu busto, reservando-se o meio corpo para gravuras.

O título de verdadeiro retrato deve-se ao facto de esta tipologia ter por objetivo o conhecimento do rosto do fundador da Ordem Hospitaleira por parte dos fiéis, utentes e visitantes das várias casas da Ordem Hospitaleira, espalhadas por todo o mundo, evitando-se a improvisação e oferecendo uma imagem mais estável e fidedigna possível do santo.

São João de Deus é representado de cabeça rapada, olhar profundo, com ar robusto e de barba negra. Após o primeiro retrato de São João de Deus de Alonso Sánchez Coello, muitos outros o sucederam: “(…) entre 1823 e 1825 realizaram-se diversas cópias do mesmo, estando distribuídas pelas diferentes casas da Ordem Hospitaleira”. A importância e popularidade desta representação destaca-se pela sua difusão junto dos hospitais e casas desta Ordem religiosa.

Esta figuração não é exclusiva em pintura, existindo também em gravura. Pedro de Villafranca (1615-1684) foi o gravador que concebeu, em 1658, um “verdadeiro retrato” para ilustrar a biografia escrita por António de Gouveia. O santo é representado em média figura, com a mão esquerda a segurar um crucifixo e a direita sobre o peito. Está vestido com um gibão preto e uma coroa de espinhos pousada na cabeça. À sua frente encontra-se uma mesa com alguns atributos: um livro fechado, um tinteiro, uma ampulheta e uma disciplina. Estes elementos estão ligados às várias atividades que executou em vida e às virtudes do santo hospitaleiro. No canto superior direito desta gravura surge o escudo da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, com a romã, o luzeiro e uma cruz. O retrato é ainda enquadrado por uma cortina.

Em Montemor-o-Novo, no Museu de São Domingos, existe um quadro com esta mesma representação inspirada na gravura de Pedro de Villafranca. No reverso do mesmo encontramos a seguinte legenda: “Verdadeiro retrato de João Ferreira Cidade, (S. João de Deus). Foi achado este quadro nas ruínas do Convento das Freiras de N.S. da Saudação desta Villa, onde hoje está o Asylo de Infancia Desvalida, pelo tesoureiro do mesmo Asylo, Joaquim Jozé Faísca, que o restaurou e arranjou para ficar no mesmo Asylo, pelo achado de muito merecimento e próprio para esta caza de Caridade. 10 de Junho de 1877. Faísca.”. No próximo mês trataremos de apresentar as várias séries hagiográficas de São João de Deus, iniciadas em 1599.

“A iconografia de S. João de Deus”

Crónica de Outubro de 2022

São João de Deus é um dos santos com maior variedade iconográfica em Portugal e no mundo. A sua iconografia foi enriquecida pelos vários acontecimentos da sua vida, mas principalmente pela celebração da beatificação (21 de setembro de 1630) e canonização (16 de outubro de 1690). Através do reconhecimento e veneração do santo, conceberam-se várias simbologias e atributos que facilitam a sua identificação.

Enquanto historiadora de arte, irei dar-vos a conhecer a iconografia de São João de Deus, através destes artigos mensais. Neste primeiro artigo pretendo introduzir este tema, demonstrando a importância das figurações do santo.

A iconografia de São João de Deus divide-se em três representações principais:

1 – A morte e os acontecimentos sobrenaturais e milagrosos;

2 – O reconhecimento da santidade através de imagens triunfalistas;

3 – A representação enquanto santo caritativo.

Além destas três principais figurações, destaca-se a primeira imagem de São João de Deus, publicada na tradução castelhana da Bula Licet ex Debito, de 1579 e posteriormente, na obra de Francisco de Castro, em 1585. É uma gravura xilográfica, de autor anónimo, e a sua figuração recai na imagem de São João de Deus, de perfil e de joelhos, com as mãos juntas em atitude de oração, a olhar para um grande crucifixo. É representado com uma túnica curta, de mangas largas e justa à sua cintura. Por baixo desta vestimenta, tem umas calças estreitas e compridas, até ao tornozelo. Os pés estão descalços e a cabeça descoberta e rapada. No ombro esquerdo observa-se um cajado com remate curvo. À sua frente, está um grande crucifixo formado por dois madeiros planos. Ao centro, encontra-se Jesus Cristo, suspenso e com um leve pano no baixo-ventre. No topo do madeiro vertical, encontra-se a cartela com as letras I.N.R.I.
A primeira imagem de São João de Deus é considerada original, bem como a única versão autêntica do seu retrato. Esta afirmação deve-se ao facto de o ano em que foi produzida esta gravura ser muito próximo ao ano da sua morte.
No próximo mês iremos conhecer mais sobre a extensa iconografia de São João de Deus, destacando a análise da imagem considerada “verdadeiro retrato”.

Filomena Caetano. Licenciada em História e Arqueologia pela Universidade de Évora e com o mestrado em História de Arte e Património pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O tema da sua dissertação de mestrado foi o Património Vivencial de São João de Deus em Montemor-o-Novo do século XVII ao século XIX. Estudou todo contexto histórico-artístico da atual igreja matriz de Montemor-o-Novo, antiga igreja do Convento de São João de Deus e do Hospital de Santo André e do Espírito Santo, que foi ocupado pelos Irmãos Hospitaleiros durante cento e cinquenta e sete anos.