Ana Andrade

“Dar até doer”

Crónica de Novembro de 2022

“Ele levantou-se e foi para Sarepta; ao chegar à entrada da cidade, eis que havia lá uma mulher viúva que andava a apanhar lenha; chamou-a e disse-lhe: «Vai-me arranjar, te peço, um pouco de água numa vasilha, para eu beber.” (1 Reis 17-10)

Perante o apelo de Elias, esta viúva revelou uma hospitalidade natural e foi buscar água sem hesitar. No entanto, logo de seguida, quando o profeta lhe pede um pedaço de pão, o cenário muda. Ela apenas tinha uns restos de azeite e de farinha que pretendia usar para a última refeição que comeria com o seu filho, antes de os dois morrerem à fome.

Na verdade, não somos todos um pouco assim? Podemos, no imediato, ser muito generosos a responder a uma necessidade, a “apagar os fogos” das pessoas que conhecem a nossa disponibilidade para ajudar e a mover mundos e fundos em atividades de cariz social… Mas chega o momento de entregar algo que nos faça falta, algo que, interiormente, nos “saia do pêlo”… e o medo congela-nos. Porque, como nos avisou a Madre Teresa de Calcutá, se a nossa oferta não nos custar, estamos a dar apenas as nossas sobras.

Mas Elias insiste com uma mensagem com que Deus nos interpela ainda hoje: “Não tenhas medo”. E, quando a viúva dá tudo o que tem, vê que a farinha da panela e o azeite da ânfora não acabam. Às vezes, quando é a altura de fazer a vontade de Deus, olhamos para a nossa pequena morte sem pensar na enorme ressurreição que ela traz. Mais tarde ou mais cedo, os frutos da conversão pessoal tornam-se visíveis.

Mas a conversão não é um fenómeno de um momento. Há altos e baixos na vida espiritual de cada um. Devemos, no entanto, perseverar e dar tudo para sermos fiéis a Deus. Se confiarmos n’Ele, se não tivermos medo, no final tudo ficará bem, mesmo no meio da tribulação. No final deste capítulo, Elias reanima o filho da viúva que tinha sofrido uma grave doença e ela reconhece que ele é enviado por Deus. Que Ele nos ajude para que possamos concluir a nossa vida reconhecendo as maravilhas que Ele fez em nós.

“Quando te batem à porta”

Crónica de Outubro de 2022

“Vamos provar que respeitamos o acolhimento dos nossos avós trocando as armas”. 

É assim que termina o diálogo da Ilíada entre dois inimigos em pleno campo de batalha. Durante esta conversa, Diomedes percebe que Glauco era descendente de Belerofonte, herói que Eneu, seu antepassado, tinha acolhido em sua casa. Quando se apercebem disto, decidem não confrontar-se em combate, apertam as mãos e trocam as armas. 

Este episódio mostra-nos o peso que se dava à hospedagem num tempo em que as viagens eram arriscadas e dar guarida era um gesto que podia salvar vidas. O laço que se estabelecia entre o hóspede e o convidado era vínculo quase familiar que, segundo Homero, se mantinha através das gerações.

Quando um peregrino, cansado do caminho, bate a uma porta e esta se abre, muita coisa está a acontecer neste discreto instante. 

Convido-te a contemplar este “quadro”: de um lado, temos o peregrino que precisa de um lugar com um teto para descansar e assume a ousadia de importunar um estranho, humilhando-se ao ponto de poder ser rejeitado; do outro, temos o dono da casa que, gozando o jantar com a família depois de um dia de trabalho, vê o seu merecido descanso interrompido. 

Assim, à primeira vista, numa análise imediata, o cenário parece apenas desagradável, sem muito mais a acrescentar.

Convido-te a olhar uma segunda vez com mais atenção: de um lado, temos o peregrino que se entrega nas mãos do dono da casa, tornando-se dependente de um estranho e, assim, dando-lhe a oportunidade de o amar; do outro, temos o dono da casa que tem nas suas mãos a oportunidade de ser ninho e de deixar que o seu dia corriqueiro seja transformado por uma visita inesperada. 

Cenários como este, parece que só acontecem nas epopeias, mas são uma realidade mais próxima do que imaginamos. Basta perguntar aos nossos avós: como era comum cuidar dos filhos dos vizinhos quando estes estavam doentes; fazer um pouco de comida a mais para quem viesse bater à porta; arranjar um canto no celeiro para abrigar os que, de outro modo, dormiriam na rua.

Quem é que, no seu perfeito juízo, faria uma coisa dessas agora? Sabe-se lá a intenção da pessoa… esta pode até não ser a melhor forma de a ajudar… posso estar a desvalorizar o trabalho de instituições que nasceram com este objetivo… e também convém que o trabalhador mereça o seu salário… 

No entanto, encontramos ao longo dos séculos pessoas pouco razoáveis que tiveram (e ainda têm) a imprudência de acolher. Desde Áquila e Priscila, que acolheram S. Paulo peregrino, até ao casal beato Quattrocchi, que punha sempre um lugar a mais à mesa; vemos que esta insensatez parece ser querida por Deus. “Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos” (Heb 13, 2). Anjos ou mesmo, quem sabe, aquela pessoa que não teve lugar na hospedaria.

Ana Andrade. Tem 26 anos e é natural de Famalicão, onde viveu grande parte da sua vida. É membro da Juventude Hospitaleira desde 2012, movimento que a inspirou a abraçar a enfermagem. Atualmente, trabalha na Casa de Saúde do Bom Jesus e é casada com o José Urbano, mesmo depois de a ter pedido em casamento numa carripana velha.